domingo, 3 de abril de 2011



Spleen

Quando o céu baixo e hostil pesa como uma tampa
Sobre a alma que, gemendo, ao tédio ainda resiste,
E do horizonte todo enleando a curva escampa*,
Destila um dia escuro e mais que as noites triste;

Quando a terra se torna em úmida enxovia*                  
Onde a Esperança, como um morcego perdido,             
Nos muros vai bater a asa tímida e fria
E a cabeça ferir no teto apodrecido;

Quando a chuva, a escorrer suas cordas tamanhas,
De uma vasta prisão, as grades delineia,
E a muda multidão das infames aranhas
No cérebro da gente estende a sua teia,

Sinos badalam, de repente, furibundos
E lançam contra o céu um rugido insolente,
Como espíritos que, sem pátria e vagabundos,
Começam a gemer recalcitrantemente.

-E enterros longos, sem tambor e sem trombeta,
Desfilam lentamente em minha alma; a Esperança,
Vencida, chora, e a Angústia prepotente avança
E em meu crânio infeliz planta a bandeira preta.
Charles Baudelaire. As flores do mal
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*Enxovia: cárcere térreo ou subterrâneo, escuro,, úmido e sujo.
*Escampar: fugir, escampar.

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