quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Intertextualidade

Texto I
A doença da curiosidade

          Santo Agostinho escreveu que entre as tentações, uma das mais perigosas era a “doença da curiosidade”, que nos levava a tentar descobrir os segredos da natureza, “aqueles segredos que estão além da nossa compreensão, que em nada nos beneficiarão e que o Homem não deve tentar saber”. Foi, em outras palavras, o mesmo conselho que Deus deu a Adão e Eva no Paraíso, advertindo-os a não comer o fruto da árvore do saber para não contrair a doença. Eva - sempre elas - não se aguentou e comeu o fruto proibido. Resultado: o Homem perdeu o paraíso da ignorância satisfeita e está, desde então, tentando descobrir que diabo de lugar é este em que lhe meteram, esta bola girando entre outras bolas num espaço imensurável, sem manual de instrução. Santo Agostinho e outros tentaram nos convencer a aceitar os limites da fé como os limites do conhecimento. Tentar compreender mais longe só nos traria perplexidade e
angústia e nenhum benefício. Mas a doença já estava adiantada demais.
          A fase mais aguda da doença da curiosidade chegou com a inauguração, num subterrâneo na fronteira da Suíça com a França, do tal acelerador gigante que jogará prótons contra prótons em condições inéditas para tentar reproduzir a origem de tudo, liberar uma subpartícula atômica que até agora só existe em teoria e chegar mais perto de descobrir como funciona o Universo. Quer dizer, os descendentes de Adão e Eva pretendem levar a rebeldia do casal ao máximo e espiar por baixo do camisolão de Deus. Segundo alguns, o que o novo acelerador também pode trazer é um castigo terminal pela desobediência humana: o desaparecimento num buraco negro não só dos cientistas envolvidos e de alguns suíços e franceses na superfície mas do mundo todo. Com você e eu, que não temos nada a ver com a história, atrás.
          O cataclismo* é improvável, mas mesmo que a insubmissão do Homem não seja punida, resta a outra questão posta por Santo Agostinho, a do benefício. Que proveito, salvo para a vaidade científica, trará descobrir o que pretendem? Quanto mais se sabe sobre o funcionamento do Universo mais aumentam a perplexidade e a angústia por não se saber mais, por jamais se poder compreender tudo - pelo menos não com este cérebro que mal compreende a si mesmo. Mas a toxina daquela fruta era forte e ainda age no organismo. E a doença é incurável.

( VERISSIMO, Luis Fernando.Texto adaptado. O Globo, 11 de setembro de 2009)
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* Grande desastre


Texto II


TEXTO 2
O homem; as viagens

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
civiliza a Lua
coloniza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte ?
Claro - diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus
vê o visto - é isto ?
idem
idem
idem

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever ?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificíl dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas  entranhas
a perene, insupeitada alegria
de con-viver.

(ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião. Vol. 1. 
Rio de Janeiro: José Olympio Ed., 1987. p.448.)


Texto III

O conto da ilha desconhecida

          Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba* de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado seria dizer, passava a encomenda ao segundo secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.
          (...) Repartido pois entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou três perguntas seguidas, Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. (...) E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é
essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser,
Talvez esta não se deixe conhecer, Então não te dou o barco, Darás. Ao ouvirem esta palavra, pronunciada com tranquila firmeza, os aspirantes à porta das petições, em quem, minuto após minuto, desde o princípio da conversa, a impaciência vinha crescendo, e mais para se verem livres dele do que por simpatia solidária, resolveram intervir a favor do homem que queria o barco, começando a gritar, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. O rei abriu a boca para dizer à mulher da limpeza que chamasse a guarda do palácio a vir restabelecer imediatamente a ordem pública e impor a disciplina, mas, nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. Perante uma tão iniludível* manifestação da vontade popular e preocupado com o que, neste meio tempo, já haveria perdido na porta dos obséquios, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas.(...) O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatos podiam enfim avançar, nem valeria a pena explicar que a confusão foi indescritível, todos a quererem chegar ao sítio* em primeiro lugar, mas com tão má sorte que a porta já estava fechada outra vez. A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza não está, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é. Agora sim, agora pode-se compreender o porquê da cara de caso com que a mulher da limpeza havia estado a olhar, foi esse o preciso momento em que ela resolveu ir atrás do homem quando ele se dirigisse ao porto a tomar conta do barco. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira, no mar, ao menos, a água nunca lhe faltaria. O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual. (...)
          O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a verme passajar*  as peúgas* dos pajens*, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. (...)

(SARAMAGO,José. O Conto da Ilha Desconhecida, São Paulo: Cia. das Letras, 1998 – fragmentos)
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aldraba: argola de metal com que se bate às portas, chamando atenção de quem está dentro

 *iniludível: que não admite dúvidas.
*sítio: lugar

*passajar: dar pontos em roupas para consertá-las; cerzir.
*peúgas: meias curtas masculinas.

*pajens: menino ou rapaz a serviço de pessoa de alta categoria.




domingo, 20 de novembro de 2011

Atividade para a turma Avá-Canoeiro

Gente bonita,
o material prometido será enviado por e mail. Vocês receberão em anexo quatro páginas sobre a estrutura do texto narrativo. Leiam, fichem (parafrasear, resumir) e apresentem este material na aula de terça-feira (22/11). Também devem escrever uma redaçãoEsta é a primeira etapa do processo de revisão e recuperação.
Qualquer dúvida, façam contato pelo e mail: marciaderzie@gmail.com

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A Via Láctea

Renato Russo




Quando tudo está perdido 
Sempre existe um caminho 
Quando tudo está perdido 
Sempre existe uma luz 
Mas não me diga isso 
Hoje a tristeza não é passageira 
Hoje fiquei com febre a tarde inteira 
E quando chegar a noite 
Cada estrela parecerá uma lágrima 
Queria ser como os outros 
E rir das desgraças da vida 
Ou fingir estar sempre bem 
Ver a leveza das coisas com humor 
Mas não me diga isso 
É só hoje e isso passa 
Só me deixe aqui quieto 
Isso passa 
Amanhã é um outro dia, não é 
Eu nem sei por que me sinto assim 
Vem de repente, um anjo triste perto de mim 
E essa febre que não passa 
E meu sorriso sem graça 
Não me dê atenção 
Mas obrigado por pensar em mim 
Quando tudo está perdido 
Sempre existe uma luz 
Quando tudo está perdido 
Sempre existe um caminho 
Quando tudo está perdido 
Eu me sinto tão sozinho 
Quando tudo está perdido 
Não quero mais ser quem eu sou 
Mas não me diga isso 
Não me dê atenção 
E obrigado por pensar em mim 
Mas não me diga isso 
Não me dê atenção 
E obrigado por pensar em mim

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Atividade Extra - CPII

Texto I

Subprodutos do Amor
 
Está na cara que a família passa por grandes transformações. Não foi apenas o
horizonte psicológico que se ampliou. Foi também o espaço material que se reduziu.
Numa grande cidade como o Rio ou São Paulo, falta base física à família — e refiro-me
à família da classe média, porque daí para baixo falta tudo, a começar pela moradia.

A velha organização patriarcal não tem condições de sobrevivência entre as
quatro paredes de um apartamento, mesmo que não seja apenas um angustioso quartoe-
sala conjugados. Aí não há, nem material nem moralmente, como preservar, por
exemplo, a autoridade intocável do pai, que, pela própria contingência, se torna um igual
dos demais membros da família. Aquele pai antigo, meio distante, tem de guardar
distância também quanto ao espaço físico, para encarnar a suprema instância. Hoje é
impraticável esse ‘retiro’ — pai, mãe e filhos tropeçam uns sobre os outros e vivem
numa promiscuidade de gavetas, utensílios e telefones. Mais do que Freud e toda a
Psicologia moderna, a falta de espaço “aproximou” a vida familiar a um ponto que já se
justifica a reação oposta, em busca de uma privacidade que se torna cada vez menos
possível.

De sua parte, a mulher teve acesso à vida social, não só porque trabalha (ou
pode trabalhar), como porque sofre os mesmos estímulos que agem sobre o homem.
(...)

Pai destronado, mãe trazida para um primeiro plano de “igualdade” onerosa —
tanto basta para estourar a tranqüila constelação familiar de antigamente. E os filhos?
Estes, sobretudo a partir da adolescência, não têm como dar vazão as suas energias
senão fora desse inexistente ambiente familiar. (...) Pai e mãe são um atraso de vida e
os filhos “estão mais pra frente” — como se usa dizer. É curioso verificar que, longe de
protestar contra a chamada desagregação da família, os filhos muitas vezes passem a
desejá-la. O ideal é o filho de chocadeira, gerado por inseminação artificial (por
enquanto, não há ainda processo mais adiantado) e criado por instituições impessoais,
de caráter anônimo, isto é, público.

Os psicólogos, até onde sei, ainda concordam em reconhecer a importância da
figura materna para o equilíbrio emocional. A mãe bossa-nova, a mãe das grandes
cidades, foi submetida a transformações notórias. Ainda as que só têm um marido
(concomitante ou sucessivamente) vivem atarefadas e, em princípio, estão condenadas
a conviver mais com a manicura e o cabeleireiro do que com essa entidade antiga e fora
de moda que são os filhos. Além do mais, tem a novela, a fofoca, o cinema, o curso de
motor a explosão, (...), etc. (...) Como é que pode sobrar tempo para uma simples
criança? Criança, diga-se em nome da verdade, quase sempre analfabeta, babona e
indefesa, o que é o fim.

Mas afinal, que é que ia dizer mesmo? Não há de ser nada, vocês entenderam.
Não é preciso também fazer um grande drama, que diabo! Vem aí a pílula, poderemos
liquidar de uma vez por todas com esse incômodo subproduto do amor que é o filho. (...)
     
RESENDE, Otto Lara. Subprodutos do Amor. In: SALES, Herberto (org). Antologias
Escolares EDIJOVEM, crônicas. EDIOURO: Rio de Janeiro, 1996.





Texto II

MÃE
Existirem mães,
Isso é um caso sério.
Afirmam que a mãe
atrapalha tudo,
É fato, ela prende
Os erros da gente,
E era bem melhor
Não existir mãe.
Mas em todo caso
Quando a vida está
Mais dura, mais vida,
Ninguém como a mãe
Pra agüentar a gente
Escondendo a cara
Entre os joelhos dela.
- O que você tem?...
Ela bem que sabe
Porém a pergunta
É pra disfarçar.
Você mente muito.
Ela faz que aceita,
E a desgraça vira
Mistério pra dois
Não vê que uma amante
Nem outra mulher
Entende a verdade
Que a gente confessa
Por trás das mentiras!
Só mesmo a mãe...
Só mesmo essa dona
Que apesar de ter
A cara raivosa
do filho entre os seios,
Marcando-lhe a carne,
Sentindo-lhe os cheiros,
Permanece virgem,
E o filho também...
Ó virgens, perdei-vos
Pra terdes o direito
A essa virgindade
Que só as mães têm!

ANDRADE, Mário de. Poesias completas.
Belo Horizonte: Itatiaia, p.305.



Texto III

Família dos tempos modernos 2

www.sleek.com.br/imagens/Famliadostemposmodernos2_AA29



QUESTÃO 1
No 1º parágrafo do texto I, o autor emprega uma oposição para caracterizar as grandes
transformações pelas quais a família passa. Transcreva, desse parágrafo, as duas
expressões – ambas formadas por substantivo mais adjetivo - que indicam essa oposição.
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QUESTÃO 2
Em um dos dois últimos parágrafos do texto I, é empregada uma forma verbal que induz os
leitores a compartilharem da conclusão a que chega o autor. Transcreva essa forma verbal.
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QUESTÃO 3
A “tranqüila constelação familiar de antigamente”, citada no quarto parágrafo do texto I,
apresenta o mesmo valor semântico de uma outra expressão usada anteriormente no
segundo parágrafo. Que expressão é essa?
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QUESTÃO 4
Retire do 4º parágrafo do texto I o adjetivo que sintetiza a nova condição da figura paterna
na constelação familiar.
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QUESTÃO 5
No verso “Sentindo-lhe os cheiros”, do texto II, o pronome pessoal oblíquo se refere a que
termo?
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QUESTÃO 6
“A velha organização patriarcal não tem condições de sobrevivência entre quatro paredes de
um apartamento, mesmo que não seja apenas um angustioso quarto-e-sala conjugados”.
(texto I, 1º parágrafo)
Transcreva o verso do texto II em que aparece uma expressão com o mesmo valor
semântico do destacado na frase transcrita acima.
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QUESTÃO 7
No texto III, a pergunta implícita do filho confirma uma visão do texto I.
a) Qual seria a pergunta do filho?
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b) Que passagem do 4º parágrafo do texto I descreve o filho da “nova” família?
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QUESTÃO 8
Os textos I, II e III tratam de relações familiares, com grande ênfase no papel da mãe. Sobre
esse papel, é CORRETO afirmar que:
a) é irrelevante para a estrutura familiar.
b) é secundário no crescimento dos filhos.
c) é responsável pelas transformações familiares.
d) é omisso na educação dos filhos.