Subprodutos do Amor
Está na cara que a família passa por grandes transformações. Não foi apenas o
horizonte psicológico que se ampliou. Foi também o espaço material que se reduziu.
Numa grande cidade como o Rio ou São Paulo, falta base física à família — e refiro-me
à família da classe média, porque daí para baixo falta tudo, a começar pela moradia.
A velha organização patriarcal não tem condições de sobrevivência entre as
quatro paredes de um apartamento, mesmo que não seja apenas um angustioso quartoe-
sala conjugados. Aí não há, nem material nem moralmente, como preservar, por
exemplo, a autoridade intocável do pai, que, pela própria contingência, se torna um igual
dos demais membros da família. Aquele pai antigo, meio distante, tem de guardar
distância também quanto ao espaço físico, para encarnar a suprema instância. Hoje é
impraticável esse ‘retiro’ — pai, mãe e filhos tropeçam uns sobre os outros e vivem
numa promiscuidade de gavetas, utensílios e telefones. Mais do que Freud e toda a
Psicologia moderna, a falta de espaço “aproximou” a vida familiar a um ponto que já se
justifica a reação oposta, em busca de uma privacidade que se torna cada vez menos
possível.
De sua parte, a mulher teve acesso à vida social, não só porque trabalha (ou
pode trabalhar), como porque sofre os mesmos estímulos que agem sobre o homem.
(...)
Pai destronado, mãe trazida para um primeiro plano de “igualdade” onerosa —
tanto basta para estourar a tranqüila constelação familiar de antigamente. E os filhos?
Estes, sobretudo a partir da adolescência, não têm como dar vazão as suas energias
senão fora desse inexistente ambiente familiar. (...) Pai e mãe são um atraso de vida e
os filhos “estão mais pra frente” — como se usa dizer. É curioso verificar que, longe de
protestar contra a chamada desagregação da família, os filhos muitas vezes passem a
desejá-la. O ideal é o filho de chocadeira, gerado por inseminação artificial (por
enquanto, não há ainda processo mais adiantado) e criado por instituições impessoais,
de caráter anônimo, isto é, público.
Os psicólogos, até onde sei, ainda concordam em reconhecer a importância da
figura materna para o equilíbrio emocional. A mãe bossa-nova, a mãe das grandes
cidades, foi submetida a transformações notórias. Ainda as que só têm um marido
(concomitante ou sucessivamente) vivem atarefadas e, em princípio, estão condenadas
a conviver mais com a manicura e o cabeleireiro do que com essa entidade antiga e fora
de moda que são os filhos. Além do mais, tem a novela, a fofoca, o cinema, o curso de
motor a explosão, (...), etc. (...) Como é que pode sobrar tempo para uma simples
criança? Criança, diga-se em nome da verdade, quase sempre analfabeta, babona e
indefesa, o que é o fim.
Mas afinal, que é que ia dizer mesmo? Não há de ser nada, vocês entenderam.
Não é preciso também fazer um grande drama, que diabo! Vem aí a pílula, poderemos
liquidar de uma vez por todas com esse incômodo subproduto do amor que é o filho. (...)
RESENDE, Otto Lara. Subprodutos do Amor. In: SALES, Herberto (org). Antologias
Escolares EDIJOVEM, crônicas. EDIOURO: Rio de Janeiro, 1996.
Texto II
MÃE
Existirem mães,
Isso é um caso sério.
Afirmam que a mãe
atrapalha tudo,
É fato, ela prende
Os erros da gente,
E era bem melhor
Não existir mãe.
Mas em todo caso
Quando a vida está
Mais dura, mais vida,
Ninguém como a mãe
Pra agüentar a gente
Escondendo a cara
Entre os joelhos dela.
- O que você tem?...
Ela bem que sabe
Porém a pergunta
É pra disfarçar.
Você mente muito.
Ela faz que aceita,
E a desgraça vira
Mistério pra dois
Não vê que uma amante
Nem outra mulher
Entende a verdade
Que a gente confessa
Por trás das mentiras!
Só mesmo a mãe...
Só mesmo essa dona
Que apesar de ter
A cara raivosa
do filho entre os seios,
Marcando-lhe a carne,
Sentindo-lhe os cheiros,
Permanece virgem,
E o filho também...
Ó virgens, perdei-vos
Pra terdes o direito
A essa virgindade
Que só as mães têm!
ANDRADE, Mário de. Poesias completas.
Belo Horizonte: Itatiaia, p.305.
Texto III
Família dos tempos modernos 2
www.sleek.com.br/imagens/Famliadostemposmodernos2_AA29
No 1º parágrafo do texto I, o autor emprega uma oposição para caracterizar as grandes
transformações pelas quais a família passa. Transcreva, desse parágrafo, as duas
expressões – ambas formadas por substantivo mais adjetivo - que indicam essa oposição.
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QUESTÃO 2
Em um dos dois últimos parágrafos do texto I, é empregada uma forma verbal que induz os
leitores a compartilharem da conclusão a que chega o autor. Transcreva essa forma verbal.
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QUESTÃO 3
A “tranqüila constelação familiar de antigamente”, citada no quarto parágrafo do texto I,
apresenta o mesmo valor semântico de uma outra expressão usada anteriormente no
segundo parágrafo. Que expressão é essa?
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QUESTÃO 4
Retire do 4º parágrafo do texto I o adjetivo que sintetiza a nova condição da figura paterna
na constelação familiar.
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QUESTÃO 5
No verso “Sentindo-lhe os cheiros”, do texto II, o pronome pessoal oblíquo se refere a que
termo?
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QUESTÃO 6
“A velha organização patriarcal não tem condições de sobrevivência entre quatro paredes de
um apartamento, mesmo que não seja apenas um angustioso quarto-e-sala conjugados”.
(texto I, 1º parágrafo)
Transcreva o verso do texto II em que aparece uma expressão com o mesmo valor
semântico do destacado na frase transcrita acima.
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QUESTÃO 7
No texto III, a pergunta implícita do filho confirma uma visão do texto I.
a) Qual seria a pergunta do filho?
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b) Que passagem do 4º parágrafo do texto I descreve o filho da “nova” família?
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QUESTÃO 8
Os textos I, II e III tratam de relações familiares, com grande ênfase no papel da mãe. Sobre
esse papel, é CORRETO afirmar que:
a) é irrelevante para a estrutura familiar.
b) é secundário no crescimento dos filhos.
c) é responsável pelas transformações familiares.
d) é omisso na educação dos filhos.

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