"ESQUELETO INTERPRETATIVO"
Paráfrase
A paráfrase é a primeira parte da análise. É um resumo do enredo, um “contar história com as suas próprias palavras”, por isso deve ser curta e objetiva, deve resumir-se apenas ao essencial.
Questão Norteadora/Hipótese Interpretativa
Quando começamos a analisar um texto de ficção, estamos buscando elementos para interpretá-lo. Ao mesmo tempo, desde o início, temos em mente uma idéia do que o conto significa, uma hipótese interpretativa ou um elemento que nos deixou intrigados. É importante formular questões para a obra literária, mas só são pertinentes as perguntas que nos ajudem a entender a obra em sua totalidade. Quer dizer, perguntar por que o pai colocou um calção de banho para subir no telhado de pouco serviria para entendermos o conto. As questões norteadoras fundamentais para a compreensão da narrativa de Clarice Lispector foram lançadas na aula anterior, e devolvidas em forma de hipóteses interpretativas.
Exemplos de questões norteadoras
Por que, afinal, a família desistiu de comer a galinha? E por que, tempos depois, eles decidem comê-la?
Análise
Agora chegamos ao corpo do trabalho. Você vai analisar o conto. Não sabe nem por onde começar? Então vamos por partes:
Em primeiro lugar, investigue elementos do conto que sirvam para responder à sua questão norteadora. A análise constrói argumentos que sustentem a interpretação. Ela conduz o leitor por meio de seu raciocínio. É como se, lendo a sua questão, o leitor dissesse “também não entendi” ou “não acho esta questão pertinente”. Sua análise é o caminho para convencê-lo.
Mas não podemos nos esquecer também de que, em arte, forma é conteúdo. Por isso, é preciso ressaltar a contribuição que alguns aspectos formais possam vir a ter na economia do conto. O que são “aspectos formais”? São elementos que se referem menos diretamente ao que está sendo dito e mais ao como está sendo dito. O tipo de narrador, a caracterização de algum personagem, o tempo, o espaço e o tipo de discurso são alguns dos elementos formais que podem ser fundamentais ao desvendar o mistério. O que, na forma do conto "Uma galinha", chama mais atenção?
Repare nos seguintes trechos para que fique clara uma interessante ambivalência presente no conto:
Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha.
Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha.
Existem inúmeros elementos passíveis de análise em um bom conto. Se conseguirmos ter uma boa questão (que se refere mais ao conteúdo do conto) e ainda um olhar atento no que se refere à forma, então já é possível traçar um caminho seguro pelo qual nossa análise pode seguir.
Interpretação
A interpretação corresponde à questão “do que fala o texto”. Ela é a exposição do sentido profundo do conto. E é ele que estamos buscando desde o início. Quando analisamos, queremos saber o que está dito pelos silêncios, nas entrelinhas; o que se origina da relação íntima entre forma e conteúdo. Se na análise desmontamos o texto em partes, na interpretação temos de reorganizá-lo como um todo, um todo que reúne forma e conteúdo.
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